Empty room
Ainda me lembro daquela manhã. Estava frio e um traço de luz tentava penetrar o quarto em que nós dois havíamos passado um dia praticamente inteiro. O detalhe da persiana que demonstrava a marca do tempo. O brilho que brotava na sua feição a cada movimento que você fazia na cama.
As cinzas de cigarro que demarcavam o cinzeiro. Me faziam lembrar o quanto aquela noite havia sido intensa. Dois estranhos que haviam se entrecruzado numa noite fria de inverno. Ainda me lembro do primeiro drink daquela noite. Tinha saído em busca de uma calefação.
A noite lá fora parecia mais solitária que eu, mas mesmo assim havia me decidido me perder nela. As luzes brilhavam intensamente, tentava buscar alguma complacência nas faces estranhas que me circundavam, mas a busca era vã. O frio parecia despertar a busca pela sobrevivência em mais uma noite fria na cidade grande.
O tempo passara e eu me via cada vez mais perdido. Foi quando eu desisti de me encontrar naquela noite infindável. Foi quando eu decidi tomar o primeiro drink e mais uma vez tentava encontrar um pouco de amor num copo sujo que já havia beijado muitas bocas tão solitárias quanto a minha...
Me lembro de tê-la visto quando já estava desistindo de encontrar alguma esperança naquelas doses secas empilhadas estomago abaixo. A sua feição traduzia as marcas do tempo, já devia ter vivido muito mais histórias do que muitos de nós poderíamos contar.
Sentada ao meu lado vi como as marcas do tempo eram corrosivas para as almas que haviam optado por ser perder de vez. Notei no seu jeito fugaz a oportunidade da aproximação. Havia sentido que ela era igual a mim. Acho que foi por isso que resolvemos nos deitarmos naquela cama suja naquele local que traduzia a depressão que se ramificava profundamente na minha alma. Sabíamos que não encontraríamos as respostas que tanto buscávamos ao cometer aquele ato, mas sabíamos que o calor era essencial para a sobrevivência de ambos para aquele dia que era recém nascido e que nos atordoaria mais uma vez até o momento em que a próxima dose fosse tomada e as nossas vidas fossem regadas por aquele torpor trazido pelo aquele gosto de álcool que penetraria em cada pedaço de superfície que sofria em silencio as dores sentidas por um corpo que apenas aguardava o ultimo momento.
Ouvindo:
Susanna and The Magical Orchestra: Enjoy the Silence
